Capítulo
19 – Marés e Estrelas
A madrugada se ia, o
sol começava a nascer e uma espessa neblina surgia do mar.
E a visão era um
ultraje, pelo menos para Doufas. E despertava uma ira no coração do Lorde que
só seus senhores apaziguavam, do contrário já havia atacado, estavam ali a dois
dias, na frente de seus exércitos bem treinados. Eram marinheiros que o
ameaçavam com gritos, homens do mar, que o desafiavam em terra, e liderados por
ninguém menos que Merlon, o General de Andor.
A idéia de Merlon
era ousada, mas se ela funcionasse ele teria os dois exércitos e não perderia
muitos homens, espero que não seja um covarde, Lorde Doufas, espero que
continue sendo bravo e tolo como sempre foi, pensou Merlon.
Merlon estava em
frente às muralhas de Porto Vitória a dois dias, havia dez mil homens à suas
costas, fora dos portões da cidade, o que era um desafio e um ultraje às
Estrelas Negras de Doufas. A muralha da cidade estava repleta de arqueiros,
homens com lanças de arremesso e arpões de pesca. Merlon sabia que Doufas não
suportaria aquela visão, aqueles homens que eram do mar desafiando seus
exércitos do solo. O campo era o estreito de terra entre Porto Vitória e Praça
Jaoh’ndar, e ao longe podia-se ver as Estrelas Negras preparando para atacar,
dois dias, ele suportou durante dois dias, virá com aço em suas mãos e ira em
seu espírito, não posso deixar as Marés de Outono temerem aqueles homens,
pensava Merlon, então virou-se e bradou em sua voz de guerra, aquilo que
incitava os homens de porto Vitória a dois dias.
- Marés de Outono! –
berrava Merlon, em seu Sofhlax, com as mãos erguidas em direção à cidade – Qual
sua bandeira?
O som que veio dos
exércitos ao pé das muralhas e do topo, onde mais homens chegavam a cada hora,
era uma maré de vozes exaltadas.
- O Barco Que Não Se
Quebra! Porto Vitória! Porto Vitória! – bradavam os homens, e batiam espadas em
escudos, tocavam trombetas e davam gritos de ordem e de guerra. Isso não é
nenhum Vhandolion, e os espíritos não aceitariam de qualquer forma, mas acho
que vai ajudar, pensou Merlon. Nada daquilo que os Vitorinos bradavam era real
porém, fora ideia de Merlon, para incitar os guerreiros. Porto Vitória possuía
um exército marítimo, e no mar não há gritos de guerra ou saudações, as ondas
são as únicas que falam no mar.
Mas aqueles homens
gritavam, berravam e desafiavam, a ideia de Merlon era não fazer eles
debandarem, e provocar a Estrela Negra ao mesmo tempo. Até agora estava
funcionando.
- Acha que demora
muito, meu General, até atacarem? – perguntou Fubrus, filho de Larkos. Estava
em sua armadura e usava seu elmo de grades, mas não montava, estava a pé, ao
lado de Merlon, os Vitorinos não eram Cavaleiros, eles diziam cavalgar as ondas
e os mares.
- Não, meu filho,
não vai demorar agora. A hora esta chegando e Doufas deve estar derretendo de
ódio nesse exato momento – disse seriamente Merlon, observando a movimentação
ao longe, no acampamento das Estrelas Negras. Virou-se para a muralha novamente
e incitou em sua grave voz – Marés de Outono! Qual sua bandeira?
Mas uma vez a cidade
respondeu.
- O Barco Que Não Se
Quebra! Porto vitória! Porto vitória!
Merlon virou-se
novamente para o acampamento de Lorde Doufas.
- Fez o que lhe
pedi? Esta tudo pronto? – perguntou Merlon.
- Sim, Senhor
Merlon, exatamente como pediu, tudo esta preparado.
Merlon passou a mão
em sua longa barba.
- Então é isso, acha
que funcionará? – perguntou Merlon.
- Eu cr... – começou
Fubrus, mas parou, percebendo que Merlon já estava respondendo, e para sua
cicatriz.
- Ora deixe estar,
Decadência, sua opinião às vezes me aborrece.
Nesse momento um som
veio do acampamento de Doufas, trombetas e tambores, o som vinha com o vento e
tocava o rosto dos Vitorinos, finalmente as estrelas saíram das nuvens, pensou
Merlon.
E então todos
puderam ver, as tropas de Doufas deixando seu acampamento, marchando em direção
a Porto Vitória. Havia homens a pé, a infantaria das Estrelas Negras,
Cavaleiros em montarias enfeitadas com estrelas e longas lanças com pontas
estreladas, arqueiros em linha dupla, dois enormes aríetes e muitos escudeiros,
ali se viam oito mil homens e muitas bandeiras, a Torre do Rei vinha com a
infantaria e os arqueiros, Lord Mafilhem, o traidor mostra seus dentes afiados,
pensou o velho. A grande tropa de Cavaleiros, era uma maré de armaduras
enegrecidas, traziam as bandeiras de muitos senhores, Bolers e sua Águia Verde,
Viroon e sua Víbora Vermelha, os Mafil com suas Flechas Brancas, e a Estrela
Negra sobre fundo branco, Força dos Homens.
Marchavam sem
pressa, os tambores ditavam um ritmo lento e as trombetas tocavam com pouca
frequência, mas eles vinham, e isso já era problema demais.
- Prepare-se Frubus,
vamos ter uma conversa com homens experientes, que são mais habilidosos com
suas línguas do que com suas espadas.
- Sim, Senhor, conheço
a fama destes Senhores, não me deixarei levar.
- Assim espero, não
diga nada e apenas segure o estandarte, entendido?
Fubrus assentiu.
Merlon percebeu que
os tambores ficavam mais altos e ameaçadores conforme os homens se aproximavam,
e percebeu também que a cidade estava muito quieta, incitou a cidade mais uma
vez e novamente veio a resposta.
- O Barco Que Não Se
Quebra! Porto Vitória! Porto Vitória!
E eles ficaram ali
um longo tempo, esperando seu inimigo chegar, e Merlon torcendo para seu plano
funcionar. Quando os inimigos estavam a certa distancia eles cessaram sua
marcha. Uma única trombeta tocou, tocou alto e agudamente, como um pedido de
atenção.
- Chegou a hora –
disse Merlon -, vamos!
E foram, Fubrus e
Merlon, em direção aos oito mil homens. Merlon em seu Sofhlax e Fubrus
caminhando, com o símbolo de Porto Vitória em sua lança. Do outro lado do
campo, avançaram uma dupla de Cavaleiros, um estava encouraçado e o outro em
sedas, Merlon sabia quem eram, pois não traziam estandarte, não precisavam se
identificar, eram Doufas e Mafilhem.
Se encontraram enfim
em meio aos dois exércitos, em meio a dez mil Vitorinos e oito mil Estrelas
Negras.
Doufas pediu a
palavra.
- Não sei se
desaprendi a contar, mas não vejo vinte mil homens ali, velho, vejo no máximo
doze mil. – disse Doufas, errando o número.
Merlon percebeu
Fubrus engolir em seco, o jovem capitão sabia do plano todo, e o General não
queria ver seu plano ir por terra.
- Creio que não
passa alguns dias em Porto Vitória a algum tempo, Castelão, muitas coisas
mudaram na cidade, devido a motivos que não me cabe comentar.
Doufas pareceu
desconfiado, Mafilhem no entanto engoliu a história.
- Sinto muito por
todo esse infortúnio, General, já lhe disse uma vez e repito agora, os tempos
mudaram, agora você vê isso, com seus próprios olhos, Porto Vitória
disponibilizava de vinte mil marinheiros bem treinados, hoje no entanto não
passam de dez mil – disse Mafilhem, que era muito melhor de contas do que
Doufas -, não leve essa loucura a diante General, vamos parar aqui mesmo,
nenhum Vitorino precisa morrer aqui hoje, conversei com Lorde Doufas essa manhã
e ele concordou em não destruir homens ou cidade, baixem suas armas e lhes
garanto que tomaremos a cidade de maneira politica, com tratados e pergaminhos.
Fubrus apertou o
cabo da lança e ia dizer algo, mas Merlon pigarreou alto, lembrando o jovem de
que não podia falar ali. Merlon acariciou a branca crina de seu magro cavalo.
- Lamento dizer
isso, mas não será possível, Lorde Mooner esta gordo demais para sair da
cidade, e precisamos de seus homens para pescarem o máximo de peixes possível,
para alimentar o Lorde. – disse Merlon, provocando Doufas ainda mais – É um
grande urso aquele que governa Porto Vitória, e muitos ursos ali governaram
antes dele, creio que uma estrela não se dará bem naquele trono, Porto Vitória
não cairá, com dez mil homens ou com dez, pois eu não permitirei, serei cortês
e oferecerei a vocês a mesma proposta, baixem suas lanças e não haverá luta
aqui hoje, no entanto deverão vir comigo, para que Lorde Mooner os julgue por
sua traição contra Porto Vitória e Andor.
Mafilhem ficou
surpreso e tampou a boca com um pedaço de seda, para esconder o sorriso, Lorde
Doufas no entanto sorriu de forma sombria com seus finos lábios.
- Deseja caminhar
nos Campos de Paz ao final deste dia, Merlon? – perguntou Doufas.
Merlon parou de
acariciar a crina de seu cavalo, agora acariciava a própria barba, como fazia
com frequência. Ambos os exércitos estavam em silencio, o vento soprava no
estreito de terra e o mar chocava-se contra as pedras, em ambos os lados do
campo.
- Esta feito então,
Senhores, nos vemos na alvorada do amanhã, nos Campos de Paz.
Mafilhem se
pronunciou com sua aveludada voz.
- Merlon, nã...
- Esta louco, velho!
– se exaltou Doufas, tocando o cabo de sua espada. Merlon não se moveu – Não ha
motivo para morrer aqui, iremos dizimar suas tropas antes do desjejum, esse é
meu ultimo aviso, se retire, ou morra!
Merlon o fitou com
olhos penetrantes, movendo Sofhlax de um lado para o outro, mas Doufas não
largou o cabo da espada.
- Não se apresse,
Doufas de Força dos Homens, verei seu aço, mas não aqui, me procure no campo de
batalha, Senhor, pois certamente eu o procurarei.
Então Merlon se
virou e voltou para as muralhas e os Vitorinos, calmamente. Ouviu Doufas
incitar o cavalo em direção aos seus homens com velocidade.
Merlon se pôs em
frente aos homens e incitou a cidade novamente, a resposta veio outra vez,
agora é a hora, que os Dragões nos protejam, pensou Merlon.
Do outro lado do
campo Doufas colocava suas tropas em linha, de uma margem do mar até a outra,
corria de uma lado para o outro em seu cavalo, gritando palavras de guerra e
dando coragem a seus homens. As Estrelas Negras respondiam com gritos, espadas
e lanças batendo em escudos e cavalos que empinavam, não haveria mais volta,
Doufas desembainhou sua lâmina e apontou em direção a cidade, oito mil homens
começaram a se mover, os tambores aumentavam seu ritmo gradativamente, e logo
eles estavam correndo, com espadas em mãos, lanças apontadas para os Vitorinos
e Cavaleiros cavalgando.
- Esperem! – bradou
Merlon para seus homens, aos pés das muralhas – Carregar catapultas! – gritou o
velho, sua ordem foi repetida mais quatro vezes até chegar ao topo da muralha.
As Estrelas Negras
se aproximavam, com fúria em seus olhos.
- Esperem! – disse o
velho mais uma vez. Então ele achou a distancia segura, agora você esta preso
meu caro Lorde – Agora!
Nesse exato momento
as trombetas da cidade tocaram, e os homens formaram uma enorme parede de
escudos em frente as muralhas.
Elas estavam ali
todo tempo, e era lá que estavam os outros dez mil Vitorinos, atrás da cidade,
escondidos pela neblina do amanhecer e pelas muralhas de Porto Vitória,
duzentas embarcações, que agora saíam de seu esconderijo e navegavam em direção
aos braços de mar que contornavam o estreito de terra, onde ficava a cidade.
Dentre as embarcações estavam aquelas que Merlon mais precisava, as novas
Balsas de Catapultas, vinham atrás dos navios mais rápidos, aqueles que tinham
mais homens.
Alguns homens de
Doufas diminuíram a velocidade de sua investida, mas o Lorde e seus Senhores
incitaram, com vozes de batalha, para que não houvesse desertores.
- Agora vitorinos,
posicionar escudos! – bradou o General.
Os Vitorinos
formaram uma enorme parede de escudos, aprendida às pressas nos últimos dias,
parecia forte o bastante e Merlon esperava que se fosse preciso, elas
detivessem a primeira onda de ataques de Força dos Homens.
As Estrelas Negras
continuavam avançando, estavam perto agora, podia-se ouvir os gritos dos
homens, e a respiração dos cavalos. As embarcações da cidade passaram por eles,
uma ordem foi dada e as Estrelas Negras viraram seus escudos na direção do mar,
mas as Marés de Outono não lançaram uma flecha sequer, continuaram, a toda
velocidade até Praça Jaoh’ndar, e ali atracaram e desembarcaram, rendendo os
poucos homens que tomavam conta do acampamento de Doufas.
O Lorde se viu em
meio a inimigos, mas não se intimidou, ordenou que a infantaria continuasse sua
investida e acenou para os Cavaleiros, para que dessem meia volta em direção à
Praça.
E teve outra
surpresa, a neblina da manhã se dissipava e ele pode ver claramente, as Balsas
de Catapultas, essas não seguiram os návios, estavam paradas no meio do
estreito de mar, de ambos os lados do campo, carregadas com enormes catapultas
e balistas.
O Lorde se viu
preso, homens à sua frente e homens em sua retaguarda, embarcações à sua
direita e à sua esquerda. As Estrelas, enfim, estavam presas entre as Marés de
Outono, e como Merlon havia dito, elas não sabiam nadar.
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